Convênio com Amesampa convida ao conhecimento para saber preservar

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Autor: Hebe Rios

Meliponicultura. A palavra talvez não seja muito conhecida pela maioria das pessoas, mas o termo foi criado pelo ativista ambiental, referência no estudo de abelhas nativas do Brasil e por isso considerado o pai da meliponicultura brasileira, morto em 25 de fevereiro/2019, Paulo Nogueira Neto. O termo foi “citado pela primeira vez em uma das publicações mais importantes sobre a biologia e a vida das abelhas sem ferrão (Vida e Criação das Abelhas Indígenas sem Ferrão – 1997)”, como ressalta o presidente da Amesampa, Associação dos Meliponicultores do Estado de São Paulo, Ricardo Costa Rodrigues de Camargo.

Costa participou dia 5 de junho de 2019 da cerimônia em que foi firmado o convênio entre a Fundação José Pedro de Oliveira, que administra a Mata Santa Genebra, e a Amesampa, para a instalação de um Meliponário na Mata, em Campinas. A importância desse convênio vem da certeza de que ele pode dar incremento à pesquisa e à divulgação dos benefícios do uso sustentável das abelhas sem ferrão, especialmente as da espécie  Melípona Scutellaris. Segundo o próprio Paulo Nogueira Neto afirma em um artigo publicado na revista “Mensangem Doce” em 2013 essa espécie “poderia ser importante nos trabalhos de expansão da polinização de plantas úteis”, como destacou Costa em informativo do Amesampa distribuído aos participantes de sua palestra no auditório de educação ambiental da Mata Santa Genebra.

O presidente da Amesampa lançou a pergunta aos participantes – Onde está a biodiversidade? A resposta – na floresta. Então, é a partir do que vem acontecendo com esse bioma que devemos compreender a importância das abelhas sem ferrão. Costa destacou que o reflorestamento tem impactado a fauna e a flora da mata atlântica, cerrado e outros biomas fundamentais para o equilíbrio do regime de chuvas, por exemplo. Tudo está interligado, tudo faz parte de uma sensível cadeia que, quando alterada, pode gerar processos irreversíveis, como a extinção de espécies.

A floresta plantada (eucaliptos) está longe de ser uma floresta, com a biodiversidade que a caracteriza. A área reflorestada constitui uma área de passagem e não de presença de fauna, segundo o biólogo. Isoladas de outras espécies de fauna e flora, as abelhas não se reproduzem. Os bolsões de presença delas vão ficando cada vez mais distantes uns dos outros, o que representa mais uma barreira para sua multiplicação.

Sempre que as abelhas se extinguem em determinado local, ou aparecem mortas aos milhares em outro, por exemplo, isso representa um alarme ecológico. Este sinaliza que algo está errado naquele ambiente. A própria água que infiltra no solo e depois no lençol freático pode estar contaminada por algum veneno, geralmente fruto de pulverizações agrícolas sem controle, como acontece no vale do Ribeira, no Estado de São Paulo, e em tantos outros locais Brasil a fora.

Esse impacto pode ser medido. A polinização realizada pelas abelhas sem ferrão está na base do castelo de cartas da biodiversidade. Se a base é afetada, ou seja, se há algum déficit na polinização, sementes, plantas, frutos e animais são diretamente impactados. A polinização interfere até mesmo na qualidade do fruto e na melhoria da produção. Nem todo mundo sabe, por exemplo, que morangos mal formados são resultado de uma deficiência no processo de polinização realizado pelas abelhas.

O pior é que as grandes plantações naturalmente atraem as abelhas, mas como o uso de agrotóxicos as extermina, a lavoura se transforma em uma armadilha mortal. Para Costa, não dá mais para permitir isso. A própria ONU preconiza a necessidade de mudança de paradigmas. É preciso não só ter alimentos, mas preservar a biodiversidade (garantida pela polinização) fundamental para a riqueza nutricional dos alimentos. Leva-se em conta que outros insetos e animais realizam a polinização, mas as abelhas são responsáveis por 75% desse processo.

Enfim, quem não conhece não valoriza e não preserva. O Brasil tem dois terços das espécies de plantas e animais existentes no planeta. Essa riqueza vale mais que ouro. As abelhas sem ferrão são uma parte fundamental da cadeia de conservação dessa biodiversidade. Sabendo mais sobre elas podemos também aprender qual é de fato a responsabilidade de cada um de nós sobre a vida e a morte no planeta Terra. Afinal de contas, pelo menos até hoje, esse é o único lugar que todas as espécies, sejam animais ou vegetais, têm para viver.

Hebe Rios

Editora-chefe

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