A cegueira mata

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por Samuel Mendonça

O discurso crítico de Mano Brown, integrante do grupo Racionais MC`s, por ocasião da eleição presidencial de 2018, em um comício, foi enfático em relação ao fanatismo. Afirmou o rapper: “O que mata a gente é a cegueira e o fanatismo”. Jair Bolsonaro publicou em sua conta do Twitter, sobre o assunto: “Concordo com o Mano Brown”. Jair Messias Bolsonaro tem se mostrado fanático e cego em relação ao coronavírus.

O coronavírus se espalha pelo Brasil de forma rápida. Outros países como a China ou Itália tinham menos casos em uma análise comparativa relativa ao mesmo período. De acordo com informações do Ministério da Saúde de 27/03/2020, 3.417 pessoas foram infectadas e 92 morreram. É bom lembrar que o primeiro caso foi registrado no Brasil no dia 26/02/2020, portanto, em menos de um mês houve a explosão de casos e de mortes. A projeção da Organização Mundial da Saúde e de infectologistas é de que o pico ainda está por vir. Só um fanático e cego para ignorar a realidade!

“Contra fatos não há argumentos”. O coronavírus é um fato, no entanto, há outro fato ainda mais preocupante: “a cegueira mata” e, neste caso, literalmente. Quando Jair Bolsonaro, Presidente da República, contraria as orientações da equipe técnica de seu Ministério da Saúde e despreza a OMS recomendando que as pessoas voltem às atividades, é claro que a confusão se estabelece.

Ninguém imagina que um Presidente da República possa confundir as pessoas e colocar suas vidas em risco. No entanto e paradoxalmente, ao apoiar a campanha “O Brasil não pode parar” – já impedida pela justiça – Bolsonaro e quem segue suas orientações sem fundamento espalham o vírus e o número de infectados e de mortos tende a aumentar. Portanto, a cegueira mata.

Pessoas informadas e de bom senso têm ignorado o Presidente e seguem em suas casas. Instituições e governadores que se preocupam com a vida humana também têm ignorado Bolsonaro. No entanto, houve quem tenha retomado as atividades, seguindo a orientação do Presidente e insisto, contra a OMS e infectologistas.

Muitos entendem o problema da pandemia como uma guerra política e passam a fazer o que o Presidente orienta sem considerar as orientações do Ministério da Saúde e da OMS. É preciso deixar claro que o Presidente está equivocado duplamente.

A pandemia do coronavírus não é uma “gripezinha” e já matou 92 pessoas só no Brasil, sem falar que a Itália teve ontem mais de 900 mortos. Além disto, os governadores, empresários e a sociedade civil que tem seguido as orientações da OMS não são contra o governo, ao contrário, estão seguindo as orientações do Ministério da Saúde. É o Presidente que é contra o seu governo e não segue o que orienta o Ministério da Saúde.

É ridícula a ideia de polarização política quando o assunto é a morte de todos. Aliás, mais de 20 pessoas – da comitiva do Presidente da República – que foram aos USA, incluindo Ministros de Estado, contraíram o coronavírus. Há informações de que o motorista do Presidente está internado com o coronavírus. Como ignorar uma realidade tão próxima, Presidente?

Jair Bolsonaro poderia ter orientação de seus assessores de que há sim um inimigo a ser combatido e não se trata de demagogia, de fantasia como é a sua companha permanente de guerra contra o comunismo. João Doria e Wilson Witzel não são comunistas, definitivamente. O inimigo se chama coronavírus e mata tanto quanto a cegueira e o fanatismo.

Se o então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro concordou com o Mano Brown que disse: “O que mata a gente é a cegueira e o fanatismo”, talvez seja o momento de refletir sobre o fanatismo que cega, mata e marcha no discurso do Presidente da República!

Não se sustenta a ideia de retomar as atividades normalmente contrariando as recomendações da OMS e de infectologistas por um “achismo” de uma pessoa, mesmo que neste caso de trate do Presidente da República. Fiquem em casa e protejam suas vidas!

Portanto, não faz sentido apoiar a proliferação do vírus porque ela significa o aumento de casos do coronavírus e de mortes. Buzinaço em apoio à morte é algo que só se explica com a expressão “A cegueira mata”.

Samuel Mendonça é Filósofo e Professor
e-mail: samuelms@gmail.com

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