Abacateiro serás meu parceiro solidário

Compartilhar

por Paulo Cesar Zambotti

Tenho um pé de abacate em casa.

Do tipo “manteiga”. É simplesmente maravilhoso!

Não tem fibra alguma, e quando está no ponto de colheita chega a pesar 1.5 kg

Duvida?

É verdade, acredite!

O abacateiro é incrível, todos os anos, ao seu tempo, brotam frutos maravilhosos, gigantes, gostosos, que retiro um a um e entrego nas creches e escolas perto de casa, no Taquaral.

As crianças e adultos ficam “encantados” quando chego com as frutas e eu me sinto muito bem fazendo isso renovadamente.

A história desse pé de abacate já tem uns 15 anos, quando comprei a casa onde moro.

No fundo do terreno tinha um pé de abacate e outro de amora.

Para construir o meu espaço gourmet tive que escolher entre a preservação da natureza e nova construção.

Pelo projeto teria que tirar ambos, e não pensei duas vezes; o pé de amora, replanto, ponderei – mas o abacateiro não tiro de jeito algum. Fiz essa promessa à ele.

Replantei o pé de amora em outro lugar do terreno onde ele ficou bem.

Quem vê a amoreira atualmente não acredita que foi replantada e no tamanho que ficou. Dá frutos em abundância e atrai diariamente dezenas de espécies diferentes de pássaros esfomeados.

Quanto ao pé de abacate, continua lá forte e bonito e com raízes profundas. Eu o chamo de senhor ABA.

Meu espaço gourmet também foi construído harmoniosamente e deixei duas aberturas no telhado para que os braços do senhor ABA pudessem alcançar o céu e ficassem lá tomando sol, vento e chuva, cheio de vida, ostentando saúde e a cada florada nos retribuindo com seus incríveis frutos.

Na letra da música REFAZENDA do cantor e compositor Gilberto Gil, o abacateiro é seu interlocutor para se comunicar com a natureza e dar a ela protagonismo num determinado momento de sua vida, quando voltou do exílio em Londres.

A espera e o respeito, pelo que a natureza pode nos oferecer são fatores fundamentais para o homem compreender e interagir com a natureza.

Estamos vivendo momentos difíceis, inimaginável isolamento social, aceitação, transformação, tempo, cura, como a mãe natureza nos ensina.

A quarentena nos obriga a sair do automático, da correria do dia a dia.

Para passar o tempo pensamos em fazer coisas que tínhamos esquecido ou deixado pra lá, como limpar livros empoeirados, discos jurássicos, ligar para nossos amigos, familiares. Além de tudo isso, achei tempo e resolvi pegar alguns abacates já que estão na época para colher e deixar na rua, higienizados dentro de uma caixa plástica com uma frase: PEGUE QUANTOS PRECISAR

Foi uma ideia para distribuir o fruto com outras pessoas, uma vez que as escolas e creches estão fechadas temporariamente pela pandemia mundial.

Não tinha a menor ideia se daria resultado, mas fui em frente!

Coloquei 25 frutos na segunda feira, as 09 da manhã. Em meia hora os 25 sumiram, e pasmem, as pessoas retiravam apenas 2 ou três e alguns olhavam para o muro de casa e agradeciam, imaginando que tivesse alguém observando, além muro. Outros deixaram recados em bilhetes improvisados, agradecendo e desejando saúde e a bênção de Deus.

Fiquei emocionado com aquilo, e minha mulher pediu para colocarmos mais 25 na caixa.

Não durou 1 hora.

Motoristas de ônibus, carros com adesivos de empresas paravam e pegavam 1 ou 2.

Parei com minhas atividades em casa e fui colher mais 25. Não é uma atividade fácil subir no telhado e colher abacates. Não tenho mais 20 anos…

Mas, motivado pela reação popular coloquei mais 25 e as pessoas continuaram a pegar apenas o que iam consumir, até que surgiu um casal com uma criança no carro por volta das 14 horas.

O homem desceu do carro e a mulher freneticamente pedia pra ele pegar todos.

“Pega, pega – leva tudo”.

Minha mulher contou a retirada de 12.

Ainda deu um para a criança brincar no banco traseiro.

É, eu fiquei como você está agora, mas parei para pensar um pouco.

Porque eles agiram daquela maneira?

Não estava escrito que não podiam pegar todos, que era para pegar o que precisassem…

Na minha imaginação, a educação, o bom senso e o espírito de solidariedade e cooperação social, que estamos vivendo com vários exemplos no mundo todo, fosse o final feliz dessa história, mas não foi.

Fiquei um pouco decepcionado, não tinha expectativas, mas tinha esperança que o roteiro desta história seria outro, mas não foi.

Foi apenas um gesto de distribuição de alguma coisa que já estou acostumado a fazer todos os anos, mas fiquei pensando naquela frase da senhora dizendo “pega, pega tudo”.

Alguns podem dizer que é o retrato da sociedade que vivemos.

Atitudes individualistas.

Pessoas com muito e outras sem nada.

Outros dirão que gestos assim retratam a índole.

Outros, que são frutos da desigualdade social.

Alguns jogando fora oportunidades e outros rezando por uma única chance na vida!

Fazendo uma analogia com os fatos atuais, com a letra da música Refazenda, que nos sugere renovação, aceitação, tempo e cura – penso no comportamento humano, social. Não quero, nem devo julgar ninguém, mas posso discutir e dividir isso.

Discutimos muito o comportamento alheio, mas quando compramos álcool gel em grande quantidade ou fazemos estoque de alimentos para enfrentar uma crise como a que estamos vivenciando, isto passa despercebido, e é atribuído a um tal de instinto de preservação (…)

Lembrei do quadro do Fantástico – programa dominical da Globo, que põe em teste o comportamento juvenil em algumas situações do tipo Bem X Mal, célebre receita Hollywoodiana.

Temos tendência a criticar quando o comportamento é fora da curva, o que contraria o bom senso e fere algo que aprendemos em casa com pais e avós, bom comportamento, mas quem sabe está aí o problema – a desestrutura familiar, a desobediência social, que não impõe a determinados grupos ou pessoas, regras, limites – tal qual  o comportamento “fora do padrão”, transgressivo, ficou um pouco marcado no Brasil na década de 70/80, com o movimento estilo punk que afrontavam a sociedade com seu comportamento, hábitos, músicas e roupas.

O que era pra ser só mais um estilo musical e comportamental virou uma bandeira ao sarcasmo e ao agressivo. Sem seguir regras, aderiram na moda ao estilo faça você mesmo e produziram suas próprias indumentárias satirizando o que era padrão, com forte critica social e desprezo pelas regras morais ou políticas.

Se olharmos o copo pela metade com água – podemos achar que está meio cheio ou meio vazio – depende do seu ponto de vista, visão pró ativa, do seu humor ou sua forma de encarar o mundo.

Sabemos por informação das autoridades de saúde do país, que uma parcela da população mundial vai morrer em consequência da covid 19. Aqui no Brasil, a guerra é para minimizar as baixas, isolando todos que compõem o grupo de risco e preparando novas vagas nos hospitais para encarar o pior cenário, o pior inimigo que já combatemos, construindo hospitais e nos guarnecendo com equipamentos apropriados.  

Antagonicamente, sem trabalhar e conseguir seu sustento do dia a dia muitos trabalhadores, homens e mulheres vão sofrer as consequências desse isolamento e milhares de postos de trabalho serão extintos.

É uma verdade nua e crua, mas ninguém quer dizer que o copo está meio vazio.

Ninguém consegue dar um “pause”, no controle remoto da vida, e vamos continuar o filme daqui dois meses.

A falta de dinheiro, de comida, remédios pode nos levar rapidamente a uma sociedade enfurecida, histérica, criando o efeito manada incontrolável.

Daí a necessidade de ações rápidas das pastas da saúde, economia e segurança pública, de forma ordenada e sincronizada, garantindo a todos uma passagem factível pela crise.

É sintomático, vai acontecer. A onda está chegando!

Estamos nos preparando adequadamente para o pior cenário?

Poderá haver saques, distúrbios aqui ou ali, mas tem que ter um controle central para segurança de todos e evitar a todo custo este cenário.

Tem muita gente que não terá recursos financeiros para passar este período e dependerá exclusivamente do governo para sobreviver. 

Muita gente vai padecer, mas antes disso poderá faltar o básico, e quando isso acontecer virão os saques, o descontrole e a história nos mostra como isso viraliza e acaba mal.

Para não acontecer isso, e passarmos pela crise com dignidade, enfrentando essa guerra como pudermos, o governo tem que agir rápido. Não sair de casa é um remédio conservador e passado de filho pra pai. Pessoas com a saúde debilitada e expostas ao vírus deverão ser cuidadas. A economia vai ser profundamente esfolada, sacudida, mas somos um país jovem e trabalhador. Sairemos dessa fortalecidos.

Para não haver desabastecimento, o governo tem de agir e manter o país funcionando. Setores imprescindíveis para a máquina rodar e outros setores deverão receber sinal verde para voltar às atividades na época certa. Fora dos microfones dos jornalistas o discurso de alguns empresários soa bonito e “politicamente correto”; no entanto, fazem pressão no governo para que a economia não pare e pedem benefícios a fundo perdido, e não prorrogação de prazo, como está acontecendo com o setor de serviços – que é o responsável pela maior fatia da pizza de arrecadação e empregos, mas que não tem força para cobrar do governo ações para viabilizar seus pequenos negócios, aceitando migalhas.

O governo federal tem recursos mas, mesmo tendo o dinheiro em mãos, não está sabendo administrar o “time epidemiológico”, não sabe como entregá-lo aos necessitados e diz não saber ao certo quem são esses necessitados.

Os governadores, na ânsia de resolver o problema e ficar na memória afetiva do eleitor, estão dando passos mais largos que o governo federal, mas não é garantia de sucesso, ou de estarem fazendo o correto, pois deveriam estar todos na mesma embarcação, remando na mesma direção e não vemos isso nos noticiários, aliás, este é outro grave problema da informação de qualidade.

A mídia brigando o tempo todo com o presidente do país, num braço de ferro ideológico interminável, e este provocando a mídia, quando deveria estar dialogando com governadores, que também só sabem pedir dinheiro, quando deveriam pedir soluções coordenadas. Todos querem ser protagonistas da crise, pensando em 2022.

As emissoras de TV, jornais e outros veículos de comunicação estão ganhando muito dinheiro com a crise. Audiências verticais e a quantidade de novos anunciantes sazonais brotando da noite para o dia, além dos anunciantes máster.

É sem dúvida um roteiro de cinema.

Hollywood deve estar trabalhando “home office” a todo vapor.

Será a nova versão de Raul Seixas “O dia que a terra parou” ou “Terra em transe”, de Glauber Rocha, mas o inimigo agora é forte e o ator principal não é a conquista do poder e sim sobreviver.

O que vai acontecer ninguém sabe, mas o que pode acontecer muita gente está prevendo e trabalhando para minimizar os estragos.

Profissionais da saúde, da limpeza, de supermercados, transportes e outros setores na linha de frente – esses sim são os verdadeiros heróis.

Dar um pé de abacate para cada cidadão é tolice e obsessão socialista.
Aceitar a transformação, os fatos, brigar por educação, saúde, moradia, segurança, distribuição de renda, emprego, oportunidades, essas são palavras que tem o dom de nos fazer acreditar, sonhar, ter esperança que a natureza mostre ao ser humano a necessidade de ter raízes profundas e fortes, que quanto mais humano, mais natural.

Paulo Cesar Zambotti é Jornalista, Publicitário, Empresário e Ex Prof. universitário.

Deixe uma resposta