Opinião

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Quanto vale a vida?

Não é de se estranhar a postura do chefe da nação. O que você faz quando vê alguém caído na rua? O que faz quando, na praia, vê uma criança, desnutrida e suja, vendendo brigadeiro? O que faz quando vê um jovem consumindo crack? O que faz quando sabe que em bairros inteiros da sua cidade não existe saneamento básico? O que faz quando sabe que, pelo menos em uma rua do seu bairro, tem gente sem geladeira ou com a geladeira quase vazia?

O que faz quando conhece as estatísticas e vê que fome e miséria ainda definem boa parte do povo brasileiro? O que faz quando as campanhas contra a dengue alertam? Limpa seu quintal? Olha suas plantas? O que você faz quando conhece o número de mortes causadas por tantas outras doenças pela falta de estrutura, vagas e remédios?

O que você faz quando uma pessoa te pede uma moeda? O que você faz quando sabe que os prisioneiros vivem amontoados nas escolas do crime? O que você faz quando o ônibus não chega? O que você faz quando a fila tá grande? O que você faz quando vê alguém tratando o outro como lixo? Ou quando você é tratado assim?

Nos acostumamos com a morte à espreita, seja de direitos ou por fatos, e isso nem mesmo aquele empresário do vídeo precisa nos lembrar. Agora vem a ironia, é bom sinalizar, tal a dificuldade coletiva de interpretação de texto, fruto do que não fazemos pela educação:

Esta morte que está aí não vai nos amedrontar, afinal temos “acima de tudo e de todos” a coragem verbal de dizer que, na escala de valor, o remédio (distanciamento social) não pode ter mais “peso econômico” do que a própria doença. Relativizamos o valor da vida, afinal sempre temos uma desculpa para não defendê-la a contento, sabemos as respostas para todas as perguntas feitas neste texto.

O chefe da nação é o pior eco da nossa pior parte. Disfarçado de defensor dos pobres, ele pensa num projeto político que privilegia a continuidade do cenário acima descrito. O cenário da maioria indiferente. Indiferentes somos todos nós e ele nos representa. Caso fosse diferente, já não estaria onde está.

Hebe Rios

Editora-chefe

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