“O teste é a base para qualquer coisa que você quiser fazer”

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Com mais de 500 mil casos de confirmados de Covid-19, de acordo com dados do Ministério da Saúde, a pandemia do novo coronavírus ainda está em situação de curva ascendente no país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que não é possível ainda prever quando a América do Sul atingirá o pico de transmissões. Os dados da organização também mostram que o Brasil registra um dos maiores aumentos nos números de casos em 24 horas.

Diante do cenário de pandemia crescente, o coordenador da frente de diagnósticos da Força Tarefa Unicamp contra a Covid-19, Alessandro Farias, analisa que ações de testagem em massa da população são fundamentais não apenas para a contenção da doença, mas também para o planejamento de estratégias de auxílio a regiões mais comprometidas pelo coronavírus e ainda, dentro das possibilidades epidemiológicas. 

Apesar de mostrar o cenário da pandemia em um determinado momento, a aplicação em massa de testes auxilia as autoridades de saúde a prever como ela deverá se comportar em futuros próximos. Isso porque, ao apontar o número de pessoas com o vírus, é possível definir se disseminação do vírus será mais ou menos intensa em diferentes cidades ou regiões. “O teste é a base para qualquer coisa que você quiser fazer.

Se a gente estivesse testando bastante, aí sim você poderia dizer ‘esse lugar dá para abrir’, e você continua testando. O R-zero só funciona se você está testando, porque ele indica para quantas pessoas você pode transmitir o vírus. Nós começamos com R em cerca de quatro, ou até mais, porque não se testa como deveria”, explica Alessandro. O “R-zero” ao qual o professor se refere diz respeito a quantos indivíduos podem ser infectados por uma pessoa. Quando o índice é menor que 1, a transmissão é baixa e a doença tende a desaparecer. Quanto mais elevado o índice, maior é a transmissão e a tendência de a pandemia aumentar. 

De acordo com Alessandro, as experiências mais positivas de enfrentamento ao novo coronavírus ocorreram em países que investiram na testagem em massa de suas populações. Ele cita o exemplo da Alemanha, que também se destacou pela antecipação ao surgimento de casos no país. “A Alemanha, em 17 de janeiro, tinha o teste pronto. Eles não tinham ainda nenhum caso e já tinham o teste pronto.

Não sei como estão agora, mas eles chegaram a testar 500 mil pessoas por dia. E não é testar uma vez e está bom, é preciso testar várias vezes, porque o teste é uma foto daquele momento. Então eles monitoraram o R-zero e, quando o índice ficou mais baixo que 1, eles começaram a abrir. Na primeira vez que isso foi feito, o R subiu para cerca de 1,3, 1,4, e aí fecharam de novo. Você consegue controlar a taxa de transmissão se você está testando, e aí você sabe o quanto você pode abrir e monitorar o resultado de ter aberto”, argumenta.

No caso do Brasil, o professor analisa que já era esperado que as regiões de São Paulo e do Rio de Janeiro concentrassem um grande número de casos por serem as principais portas de entrada de estrangeiros no país e por terem grandes densidades populacionais. No entanto, defende que uma estratégia de testagem em massa aplicada continuamente no país tornaria possível detectar com antecedência a escalada no número de casos ocorrida em Manaus, por exemplo. Nesse caso, seria possível ao Ministério da Saúde coordenar estratégias de antecipação que levassem a esses locais infraestrutura e profissionais de saúde, além de implementar medidas de maior isolamento social para contenção da doença. 

RT-PCR: teste ideal para o momento

Atualmente, dois tipos de testes são aplicados no trabalho de prevenção à pandemia e tratamento da Covid-19: o chamado RT-PCR, que identifica a presença do vírus no organismo das pessoas, feito a partir de amostras retiradas do nariz e da garganta, e o sorológico, para detecção dos anticorpos que combatem o vírus, feito com amostras de sangue. Alessandro explica que, no estágio atual da pandemia no país, ações que promovam a testagem da população devem utilizar o teste RT-PCR. Segundo o professor, ele deve ser aplicado tanto em pessoas que apresentam os sintomas da Covid-19, quanto em indivíduos assintomáticos, já que estes também podem transmitir o coronavírus e, justamente por não manifestarem sintomas, têm um grande potencial de transmissão. 

“O teste sorológico serve para um outro momento da pandemia, para quando começarmos a abrir, então será importante identificar as pessoas que tiveram a doença, ou que tiveram contato com quem teve a doença. Nesse caso, você usa o teste sorológico para identificar a capacidade de resposta ao vírus daquela população”, esclarece o professor, que demonstra preocupação com cidades e regiões que têm utilizado testes sorológicos para diagnóstico da doença, o que aponta ser uma medida equivocada. 

“Eu recebi vários contatos de profissionais da região Norte dizendo que eles estão usando o teste sorológico para fazer diagnósticos, mas ele não serve para diagnóstico. Ele serve para saber se o organismo da pessoa já respondeu contra o vírus. A gente nem sabe se o anticorpo protetor é esse que a gente detecta, você pode simplesmente estar detectando um anticorpo, mas aquilo, pelo menos, indica se a pessoa já teve a doença e respondeu contra o vírus. Mas ele não indica se essa resposta foi há um mês, há 15 dias, há uma semana, então ele não serve para diagnóstico”, explica. 

Em maio deste ano, o Hospital Albert Einstein anunciou o desenvolvimento de um novo tipo de teste para detecção do coronavírus. Ele tem o mesma finalidade do RT-PCR, de identificar a presença do vírus no organismo dos indivíduos, mas utiliza a tecnologia de Sequenciamento de Nova Geração, chamado NGS (Next Generation Sequencing). Com ela, é possível identificar pequenos fragmentos do RNA do Sars-Cov-2, o que amplia a capacidade de processamento de amostras. De acordo com o hospital, o teste possibilita a análise simultânea de 1.536 amostras. 

Alessandro comenta que esse teste representa uma importante evolução, mas sua aplicação esbarra na capacidade de coletar amostras para testagem, pois sua realização compensa em cenários nos quais há uma grande disponibilidade de amostras. Segundo ele, muitos municípios não têm conseguido adquirir swabs, o coletor semelhante a um cotonete utilizado para retirar as amostras, então é um tipo de tecnologia que depende de outras condições para aplicação. 

O professor também comenta a respeito de estudos que vêm sendo realizados no país para o desenvolvimento de um teste que identifica o antígeno do vírus no organismo. “Ele também é um teste sorológico, mas você identifica a proteína do vírus, não o anticorpo. Ele tem, mais ou menos, o mesmo propósito do RT-PCR, mas ele terá uma janela imunológica maior, ou seja, quanto tempo você demora para detectar a infecção”, explica. 

Trabalho da Força Tarefa e o papel da Unicamp

Logo que a pandemia do novo coronavírus foi declarada pela OMS em 11 de março, a Unicamp tomou a iniciativa, no dia 12, de suspender suas atividades presenciais, tendo sido a primeira universidade pública do país a adotar a medida. No mesmo período, a Força Tarefa Unicamp foi estabelecida com o objetivo de reunir profissionais, recursos e esforços da universidade para combater a pandemia.

Durante esse período, a universidade saiu na frente no desenvolvimento de soluções que têm auxiliado o sistema de saúde no diagnóstico e tratamento da Covid-19, o que inclui a elaboração de um teste local e da habilitação do Hospital de Clínicas (HC) para realização dos diagnósticos. “A Unicamp suspendeu as atividades presenciais no dia 12 de março, nós já começamos a força tarefa no dia 13. No dia 1 de abril, saiu nossa habilitação para fazer o teste. Em mais ou menos 15 dias a gente estabeleceu, treinou todo mundo e já estava habilitado”, lembra Alessandro. 

Ele também destaca a participação da universidade na validação de insumos nacionais para a realização dos testes. Segundo o professor, o trabalho foi necessário para que o diagnóstico não fosse inviabilizado pela falta de insumos ou pela dificuldade de aquisição do exterior: “Nós criamos várias alternativas, porque minha preocupação sempre foi de termos a segurança de ampliar a capacidade sem chegar um dia e ter que interromper porque acabaram os reagentes”. 

Alessandro pontua que todos esses esforços e a experiência adquirida por conta da pandemia devem ser vistos como um legado positivo deixado à universidade e ao país. “Nós começamos muito antes de quase qualquer lugar grande no Brasil, começamos muito antes de todo mundo, e é uma coisa que acaba deixando a gente feliz, de querer fazer alguma coisa que deixe algum legado dessa pandemia. É claro que vamos deixar tudo o que construímos de treinamento e de equipamentos, mas a gente quer deixar algum legado estratégico, no sentido de fazer exatamente o que a Alemanha fez, por exemplo. Deixar um legado que não tenha sido só para resolver o que apareceu, mas para nos deixar preparados para o que pode aparecer”, avalia o coordenador da frente de diagnósticos. 

Novos exames, testes em comunidades e desafios

O trabalho da Força Tarefa Unicamp continua em suas diferentes frentes de atuação. A frente de diagnósticos seguirá com pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novos testes para a detecção do Sars-Cov-2 e ações que promovam a ampliação dos testes em mais pessoas. Alessandro aponta entre os estudos promissores nessa direção o que busca viabilizar o uso da saliva como amostra para testagem. Segundo o professor, isso pode trazer mais segurança aos profissionais de saúde, que não precisariam coletar as amostras. Nesse caso, cada indivíduo poderia coletar sua própria amostra em casa, semelhante ao que ocorre em outros exames clínicos. 

Outra ação pretendida pela frente de diagnósticos é a realização de testes em massa em bairros da periferia e comunidades de Campinas. Para isso, Alessandro pontua que ainda é necessária uma quantidade maior de swabs para coleta de amostras e também parcerias com empresas parceiras, para que os mutirões possam ser feitos com a estrutura e segurança necessárias para as equipes de saúde e para as próprias comunidades. 

Apesar da necessidade de mais swabs, o professor avalia que o acesso aos insumos já não é um fator que impede a realização dos testes diagnósticos. De acordo com ele, para as equipes de saúde, a dificuldade maior são os procedimentos burocráticos que limitam a realização em maior quantidade e agilidade. “Acho que o problema é que ainda não aprendemos a lidar com pandemias. Nós temos ainda várias burocracias no sistema para uma situação em que precisamos agir rápido. Então a gente precisa conviver com burocracias que são compreensíveis em dias normais, mas em época de pandemia elas deveriam estar relaxadas”, avalia. 

Outro desafio que precisa ser enfrentado é o de conscientização da população para que colabore com as medidas de higiene e com o isolamento social que ainda necessário para conter a disseminação do coronavírus. “Eu acho que o maior entrave que existe hoje no país é a desinformação, que leva à negligência da gravidade da pandemia. E, nesse cenário, é preciso que estivesse sendo feito de tudo para testar mais pessoas. Quanto mais informação a gente der, mais gente conseguimos informar e conscientizar de que a coisa é séria e de que estamos longe do fim”, adverte Alessandro. 

Originalmente publicado no Portal da Unicamp, disponível em: https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2020/06/03/o-teste-e-base-para-qualquer-coisa-que-voce-quiser-fazer
 

Hebe Rios

Editora-chefe

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